Actividade física e a sua influência directa no meu dia-a-dia profissional

Nos dias que correm é facto assente que a actividade física regular promove a nossa qualidade de vida, principalmente quando associada a uma alimentação dita saudável. Mas que impacto directo pode isso ter na nossa vida profissional, de que forma nos pode tornar melhores no papel que desempenhamos?

Vou partilhar a minha experiência pessoal começando pelo mais simples.

O meu dia começa pelas 7h20 quando o telemóvel tenta desesperadamente acordar-me. É uma tarefa complicada, admito, mas é desempenhada com muito rigor, empenho e, quase sempre, com sucesso. Às 8h00 começo então a actividade física no ginásio que costuma durar cerca de 1h15, 1h40 se lhe quisermos juntar o tempo do banho. Por volta das 10h entro na Bliss que, felizmente, fica apenas a 5 minutos de carro do ginásio. Chegar a esta hora é já uma conquista para o meu chefe, pois durante longos meses chegava por volta das 11h muitas vezes acompanhado do colega Pedro Filipe, proeza essa que não caía muito bem entre a comunidade não atleta da Bliss – a qual é presidida pelo meu chefe – já que nós, atletas, somos espécie em vias de extinção.

Bastará então passar uma hora diária no ginásio para me tornar melhor na minha função? Talvez, mas no meu caso isso é só o começo.

Desde cedo que o desporto faz parte da minha vida. Comecei pela natação onde nadei 6 anos em alta competição com o emblema do Belenenses “ao peito”, até se tornar impossível conciliar com a carreira académica. Seguiram-se 14 anos de Karaté, competições e alguns ossos partidos.Actualmente, há mais ou menos um ano e meio, descobri outro desporto pelo qual sempre tive curiosidade mas falta de iniciativa para o levar mais a sério: a Escalada.
A escalada desportiva (variante na qual tenho mais experiência) é uma actividade extremamente completa, sendo muito exigente tanto física como psicologicamente.
Se a minha rotina diária começa por um treino matinal com foco na performance física, os fins-de-semana são passados a desafiar a performance mental. Num penhasco com alturas até 70 metros e com vista para o Palácio da Pena, rajadas de vento a 20 nós não facilitam a tarefa. É nesta altura que devemos manter a serenidade, respirar fundo, executar as devidas manobras com calma e, não menos importante, divertirmo-nos. Se todos os procedimentos forem efectuados correctamente o pior que nos pode acontecer é cair uns metros e voltar a repeti-los. É aqui que existe uma transferência e aproveitamento de skills directamente para a minha função que me tornam um melhor profissional no dia-a-dia.
Sou programador e neste ofício existem vários momentos em que tenho de trabalhar sob stress mas, na verdade, as rajadas de 20 nós estão lá, só que se chamam deadline.
Seria um desperdício se o autocontrolo que uso na parede não fosse aproveitado nestas ocasiões.
Recentemente as minhas funções na Bliss sofreram algumas alterações. Agora, também sou responsável por uma equipa de desenvolvimento.

Como é que a escalada me pode ajudar a ser um melhor Team Leader?

Nesta nova tarefa o foco já não pode ser só individual, um líder, no meu ideal, deve ser alguém responsável, organizado (bastante) e que consiga planear bem as funcionalidades ou roadmap das suas tarefas. Deve igualmente transmitir e promover um ambiente de segurança e confiança à sua equipa e, em caso de emergência, ser o primeiro a dar o “peito às balas”.
Mas a escalada não é um desporto individual? Não, de todo!
Embora não tenha 11 jogadores, a escalada não podia ser um desporto mais colectivo, pior (ou melhor) além de colectivo é um desporto que exige um elevado grau de confiança e não apenas em nós próprios. Na escalada, o escalador confia a sua vida, sim, a sua vida, ao seu belayer, colega que lhe estará a dar segurança – basicamente é quem tem literalmente a nossa vida nas suas mãos.
Antes de começar a escalar é sempre feito um check do material entre o escalador e o belayer. Esta verificação é indispensável e de elevada importância pois qualquer problema que possa acontecer “lá em cima” fica salvaguardado “cá em baixo”.
Após a confirmação de ambas as partes é tarefa do belayer recolher ou devolver corda ao sistema para que tudo corra bem. Assim, o escalador consegue progredir e em caso de queda ser amparado.
A capacidade de transmissão de confiança e segurança entre um team leader e um belayer começa assim a desenhar-se.
Quem me conhece sabe que quando me aplico numa tema tento estudar até à exaustão aprofundando-o tanto quanto a minha dedicação e curiosidade mo permitem. Agora ambiciono ir mais além e escalar em vertentes geladas (cascatas geladas) mas, para isso, tenho de começar pelo Alpinismo.
Esta nova porta abriu-se recentemente e promove igualmente mais uma partilha de skills. Aqui, a componente logística tem muito mais peso. Se quisermos passar uns quantos dias a pelo menos 2500m acima do nível do mar e completamente engolidos pela natureza, onde a paisagem branca é predominante e o contacto com a sociedade praticamente nulo, temos de nos organizar muito bem.
Talvez a melhor frase que o ilustre seja: Não existe mau tempo, existe sim má preparação.
A componente logística do alpinismo é extensa e meticulosa e, uma vez mais, tem influência directa na característica de organização e planeamento que um team leader deverá e se orgulhará de ter. No alpinismo qualquer falha no planeamento colocará em causa a segurança do grupo em toda a actividade.

Concluo, na esperança de vos ter inspirado com a forma como a minha actividade física tem uma influência directa no meu dia-a-dia profissional, dizendo também que toda a envolvência com o meio natural é muito gratificante e rejuvenescente.

Guilherme Delgado