UI até quando?

O computador pessoal tal como o conhecemos, que foi entrando nas casa das pessoas a partir dos finais dos anos 80/início dos anos 90 destacava-se por oferecer vários periféricos que compunham a interface de utilização com esses mesmos computadores. Um monitor, um teclado e um rato eram peças fundamentais sem as quais o sistema não poderia funcionar.

No entanto a UI primordial passava por uma linha de comandos. O utilizador introduzia comandos que se traduziam em acções. Ninguém nascido na década de 80 ou antes se pode esquecer do Load-aspas-aspas utilizado tantas e tantas vezes para correr um jogo em cassete de fita magnética acabado de comprar e introduzido num gravador ligado ao Spectrum.

A Xerox foi a precursora do GUI (Graphical User Interface) o interface de utilização gráfico no qual a Apple se baseou, adaptou e desenvolveu e que se tornou um standard com a proliferação dos equipamentos Microsoft durante a década de 90. A partir desta implementação aos olhos do consumidor um computador pessoal, essa ferramenta de trabalho era esperada que fosse amigável e o grafismo associado às acções que se pretendiam executar passou a ser a regra e não a excepção.

Depois disso variadíssimos equipamentos foram surgindo, computadores, PDA’s, telemóveis… todos sempre com o mesmo principio de oferecer um interface gráfico para o utilizador poder executar as suas acções.

No entanto no meio disto, ainda no final do século passado, um motor de busca reduzia o interface gráfico da utilização do seu software a uma simples caixa de texto. Bastava isso para descobrir (quase) toda a informação disponível na internet.

Há alguns anos os telemóveis – de longe o dispositivo mais pessoal e íntimo e que está presente nas vidas de toda a população mundial, passaram a ser o cerne desta questão. UI (e também UX) é uma das medidas de avaliação do software que utilizamos todos os dias. Quando quis escrever este texto, toquei num ícone no meu tablet que me abriu uma aplicação onde pude, ao tocar nas teclas de um teclado virtual escrever o que aqui lêem. Mas aos poucos também isto tem vindo a mudar.

A Siri da Apple foi talvez o primeiro interface de utilização com um dispositivo pessoal que permitia executar acções apenas com a voz e, muito importante, em linguagem natural. Até aí interfaces de voz sempre existiram: Ligar pai, Abrir Calendário, eram as acções possíveis. Mas a Siri (eu trato no feminino) veio mudar este paradigma. De repente pudemos falar para o telemóvel e perguntar se iria precisar de guarda-chuva amanhã, no Porto ou pedir para ser acordado às 7h30 sem precisar de fazer mais nada. O interface de utilização com um dispositivo passava a mudar.

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Poucos anos mais tarde estamos a começar a ver estes assistentes evoluir. Dispositivos como o Echo da Amazon, o Google Home da Google vem fazer repensar o que um interface pode ser ou irá ser. Em vez de termos de visualizar o suporte com o qual estamos a interagir basta usar a voz e a linguagem natural para manter uma comunicação com um computador que nos responde ao que perguntamos ou que executa a acção que lhe pedimos para fazer – dentro de determinados limites. Ainda. Porque no futuro com o desenvolvimento da Inteligência artificial e a internet of things, os interfaces de utilização vão se reduzir cada vez mais a uma linha de comandos novamente. Só que o comando é a voz do utilizador em linguagem natural.

Mais do que um interface gráfico, um interface de utilização em que podemos ter conversações (e delas extrair ou imputar informação) parecem ser o futuro ou os planos para os próximos anos. Estaremos a menos de uma década de podermos estar em casa e dizer “prepara-me o carro porque tenho de ir até …” e receber como resposta “é melhor levar óculos de sol e um boné porque a temperatura é de 37º e os índices UV vão estar elevados. Pretende ver algum filme na viagem?” Tudo isto sem que precisemos ver, tocar ou carregar em algum dispositivo.

E saber que quando descer as escadas o carro estará à minha espera à porta de casa, com a minha aproximação (e o meu telemóvel no bolso) destranca-se e o filme vai estar a começar. Só tenho dúvidas se, quando me sentar no computador com rodas, as pipocas estarão incluídas.